terça-feira, 21 de março de 2017

Voltemos ainda, agora e sempre ao mesmo tema, a saber, trau

O vellhino, oi, joga o manuel Rentes de Carvalho tem sido motivo para reflexões ao nível das mais elementares instâncias, incluindo a excelentíssima senhora, Patrícia Construção do Vazio Reis, o que a todos nos deixa muito consideravelmente, a saber, perplexos. Não comungo da opinião daqueles que, dando o exemplo do sueco, dinarmaquês (ou norueguês) e cito de cor, Knut Hamson, se põem a falar da importância da obra por oposição à pessoa humana, e cito, do escritor. Bastaria por exemplo, pensar no caso único de um parvo como Luís Fernando de Celine Dion, talvez o único a quem se deve permitir ter sido um chapado filho da puta, por ter sido o incrivelmente autor do inacreditavelmente livro Viagem ao Fim da Noite. Mas estes acidentes cósmicos não acontecem, graças a deus, muitas vezes. Em geral, os parvos são apenas parvos, quer enquanto pessoas, quer enquanto escritores, quer enquanto parvos. É o caso de Rentes de Henrique Raposo de Carvalho.

Recentemente, o abominável homem das neves, António Lobotomia Antunes, veio muito eficazmente, palavra de honra, corrigir a péssima imagem deixada a propósito da obra do internacionalmente aclamado José é do caraças Saramago, e nisto, o senhor Antunes resolveu chamar ao cancro, uma puta (imagem a meu ver injustamente exagerada) e de caminho, acenou ao senhor Barata, explicando ainda a genealogia do seu génio (do senhor Antunes claro, do senhor Barata apenas sabemos que é tipógrafo, o resto não interessa) embora o referido senhor Antunes, nos tenha explicado o seu amor à sua obra, ainda por cima, como homem (coitado) martirizado por uma casa carente de elogios, governada por um pai, segundo homem a contar da direita do mais espectacular falhanço ao nível do prémio nobel, e por uma mãe, aparentemente pessoa capaz de exercer as mais violentas pressões ao nível do pagamento de cartas de condução. Ainda referiu, a dado momento, como o augusto autor, em hora felicíssima, optara por se dedicar à escrita, desobedecendo rebelmente à hierática e circunspecta autoridade dos pais, pois se ficara consignado apenas ao magro salário de um chefe de Serviço médico, então, isso sim, andaria agora a vender pensos rápidos nas pastelarias, o que deve ter enchido de comoção literária e remorsos luxuriantes, a seguramente muitíssimo bem paga senhora encarregue de limpar as casas de banho da Sociedade Portuguesa de Autores. Deste modo, o homem vocacionado a escritor, encontrou-se com a sua puta, perdão, o destino: a stand up comedy onde, me parece, teria alcançado fama, fortuna e a felicidade de uma obra à medida dos limites paradigmáticos das suas potenciais capacidades, ou seja, trau.

Muito se poderia dizer a propósito de reprodução social e comédia, a propósito de cartas de condução e literatura, a propósito de sentimentos de protesto e força na coluna para subir a um palanque e estar diante de uma plateia, sem nos rirmos, sem nos mijarmos, sem pedir desculpa por estarmos ali, transformados em forças vivas de uma terapêutica, aplicada aos mais ou menos pulmões destruídos de todos aqueles que, incapazes da referida e descomunal latosa, recusam deixar-se instrumentalizar pela secreta e indomável tendência para nos sagrarmos como agentes da salvação, oremos senhor. Na verdade, também o Rentes de joga o Manuel Carvalho  veio a público defender as suas ideias de escritor aclamado por efeito de livros por mim nunca lidos, nem hipoteticamente lidos, mas folheados, a saber, um neo-pós-realismo, ou para citar António Espectacular Guerreiro, um exercício provinciano e marroquino em hiper-literatura, nomeadamente, a ideia de que os marroquinos estão a roubar o dinheiro a velhinhos, talvez como o senhor Barata, mas em holandês, absorvendo os custos de uma Segurança Social, insuficiente para dar cumprimento a todos os sonhos certa vez sonhados pela República das Letras. Contudo, não lembra do professor doutor joga o Manuel Rentes de Carvalho como também os marroquinos a trabalhar na Holanda talvez ajudem a pagar os almoços dos infinitamente necessários professores de literatura portuguesa em Amesterdão, para não falar da, a saber, tão difundida ideia de que a cultura, perdão, a cultura (sic) joga o Manuel Cultura, é alguma coisa melhor e mais biologicamente necessária ao cultivo do espírito humano do que instalar soalho ao som de Quim Barreiros. Nem só de pão vive o homem, diremos, mas então, se não só de pão vive o homem, mas também de toda a hospitalidade concedida aos marroquinos, vamos lá a ser moderados no tratamento deste delicado assunto que a todos nos martiriza no actual momento.

Acontece isto porque o referido António Rentes jogo o Manuel Antunes de Carvalho insistiu em partilhar connosco as suas ideias para o futuro da Europa (e que belo futuro esse, sem marroquinos, nem transmontanos a quem talvez faltem os dentes), e sempre que os terapeutas da alma decidem partilhar as suas ideias hiper-realistas para o futuro da nossa vida em comum, mostram à saciedade como a literatura é feita, não só de pessoas inteiramente ignorantes das regras do fora-de jogo, como também de todos os bons sentimentos somados à passagem do tempo, somados à tiragem dos jornais, somados à situação específica da nossa ignorância. E isto é particularmente doloroso para todos aqueles que, como nós, não fazem puta de ideia sobre como melhorar o mundo em que vivemos, a não ser, dei-xar-mo (tracinho) nos de merdas e produzir a chamada (vírgula) literatura, incluindo nela a crítica estética (ou seja, a política mastigada) aquilo que nos sai do sangue (e sejam perdoados os nossos, perdão, pecados dada a pouca originalidade) a nós, sim, a nós, os poucos de merdosos, que, a saber, não consideram os sentimentos um material diferenciado da inteligência, e estão apostados em raspar a imaginação com uma espátula, após a necessária aplicação do devido decapante, a ver se caiem sentimentos feridos de inteligência, caso contrário, seremos convocados a conviver em almoços com amigos do elevado calibre de um José Sousa Jorge Tavares Letria de Carvalho, joga o Manuel, Antunes.

Almoços, pois, almoços. O que de modo algum pode ser visto como um caminho aceitável para quem apenas pretende menos espalhafato e mais entretenimento (e contas pagas) a saber, a inteligência sentimental como material plastificado, mas de altíssima qualidade, na medida em que, considerando a nossa particular situação num dado momento, talvez seja legítimo considerar que sempre poderia ser outra a nossa situação num outro diverso dado momento qualquer, e isto, meus amigos, não é relativismo, isto é socialismo democrático, ou seja, isto é o contrário da pessoa humana, no fundo, é isto é ter a dolorosa consciência daquilo a que todos, lamentavelmente, aspiramos, agora ainda e sempre (com mais ou menos talento) ou seja, sermos aclamados qual santinho imóvel e pacificado a luzir no altar do futuro.

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S. Sebastião a ser curado por Santa Irene, Niccolo Renieri, 1625.

sábado, 18 de março de 2017

Levantai hoje de novo o esplendor de Portugal


O negócio do luxo a nível mundial dará, alegadamente, para comprar um equipa de 10 000 (dez mil) Cristianos Ronaldos, e por isso, Portugal deve apostar no negócio do luxo, disse a simpática senhora representada à direita na imagem, e responsável pelos Cursos de Luxo no ISEG, rematando com uma imperturbável e solene invocação do hino: «Levantai hoje de novo o esplendor de Portugal». Parece inventado, mas não é, acabou de acontecer, num programa intitulado A Cidade na Ponta dos Dedos, mais uma referência no mínimo dúbia, o que demonstra um conhecimento muito consolidado das subtilezas do mestre Quim Barreiros. Na verdade, podemos repetir: quem está disposto a levantar o esplendor de Portugal? Eu, considerando a espectacular realidade em que vivemos, e com muita pena minha, sinto-me um pouco cansado. Mas fica o apelo.

sexta-feira, 10 de março de 2017

A Pequena Europa e a grande chatice


Não sei se temos considerado devidamente a relação entre os «planos inclinados» e a «palavra como instrumento do pensamento». No meu caso, nutro um considerável interesse pela palavra como suspensão do pensamento ou mesmo como veículo das intenções mais baixas do instinto humano, ó maravilha fatal da nossa idade, a saber, a divinização de tudo quanto é humano, para citar Philip K. Dick, não foi o homem a matar deus, foi deus quem engoliu o homem, e isso tem sido um vasto problema, estamos todos cheios de ambições desmedidas, no fundo, não temos trabalhado bem o jogo interior, nem a reacção à perda, e isto vai de goleada em goleada.

Vamos lá ver se nos entendemos: a chamada recriação, nomeadamente, do porco preto, será também ela (a recriação do porco preto) subsidiária do pensamento? E quanto à cultura do pastel de bacalhau? Este exemplo foi dado por Lobo Antunes, numa entrevista relativamente recente, e parece-me um notável sintoma de hipocrisia intelectual, pois nunca vi a cultura do pastel de bacalhau devidamente tratada nas obras de Lobo Antunes, e o tanto que teríamos todos a ganhar com isso. Na verdade, se eu for andar de carrocel e tentar em simultâneo resolver umas palavras cruzadas, estamos diante de um exercício de recriação ou de um instrumento do pensamento?

Pergunta: onde pretende o senhor doutor autor da supracitada peça crítica, traçar a linha divisória entre pensamento e recriação? Paradoxalmente, os críticos literários, talvez por visitarem muitas vezes exposições de arte contemporânea, mantêm, regra geral, uma atribulada relação com a clareza do raciocínio, não gostam do lúdico, nem do entretenimento, nem do prazer da chalaça e do chavascal imagético, no fundo, são filhos do modernismo (essa adolescência tardia da civilização), não esqueçamos a carrada de horas passadas pelo pobre James Joyce entre melancólicos padres.

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Este assunto é tratado de um ponto de vista radical, num filme italiano da autoria de Tinto Brass, curiosamente, transmitido pela Correio da Manhã TV, numa madrugada destas. Com a excelente Anna Alexandrovna Jimskaya, nascida no Uzbequistão, de mãe ucraniana e padre russo, uma acrobata com experiência do circo, fabulosa atleta, praticante de ginástica artística e exímia bailarina clássica, o filme é uma reflexão sobre o mundo editorial, o desejo e as diferenças entre arte superior e chavascal. Vamos ver algumas imagens.

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Neste filme, a bela protagonista, fantasia eroticamente com uma relação adúltera, pois o marido (um editor) parece desinteressado de uma cabal utilização de todas as possibilidades do corpo feminino, isto sem ponta de exploração ou violência, mas numa verdadeira e cabal análise do prazer físico humano, amen. Com o pito a arder (peço desculpa mas a expressão artística não é minha) a bela protagonista trava conhecimento com um artista francês que a certa altura confronta o prazer oferecido pela leitura de vários autores, Byron incluído, e a posse, ainda que precária e breve, das excelsas ancas e das volumosas e firmes nádegas da bela protagonista, que vai coligindo todos os seus secretos raciocínios num livro, considerado pelo seu marido, e já perto do final do filme, como um obra-prima de erotismo. Dirão os mais conservadores: para certos homens, a mulher é apenas um objecto de prazer. Sim, é uma questão que nos inquieta, admitamos. A nós e a Homero, essa instituição colectiva, segundo a qual, a posse (repitamos, a posse) de uma mulher, leva os mais abrutalhados guerreiros do mundo antigo a mergulharem num arraial de porrada e assassínio, para resgatar a bela Helena. Isto é literatura masculina, por certo, e não estarei a ironizar quando antevejo um problema complicado, no momento em que o professor Eduardo Pitta considera que os melhores romances das últimas décadas tenham sido escritos por mulheres, dando o fabuloso exemplo da sua colega de trabalho, a vice-directora da Revista Sábado (onde, creio, escreve o professor doutor engenheiro Eduardo Pitta) de seu nome, Dulce Garcia, uma pessoa para quem Julian Barnes e Ian MacEwan são os modelos a seguir: o sagrado coração de Maria nos proteja, a julgar por este trailer, o livro deve ser um prodígio da profundidade literária, um hino à inteligência humana.

Ora, arrisco dizer, estamos aqui diante do principal problema literário de todos os tempos: atingimos a felicidade pelo chavascal ou pela ascese? E pensará a mulher da mesma maneira ou prepara, na sombra, uma revolução capaz de separar de uma vez por todas chavascal e ascese, negando aos homens a relação atribulada com o corpo feminino? Meus amigos, não será esta uma falsa questão? Creio que estamos, homem e mulher (e todas as variáveis possíveis a partir deste modelo binário) unidos na mesma luta: como intensificar o prazer sem destruir a fonte do prazer e sem nos destruirmos?

Do meu ponto de vista, e ao contrário do preconceito, não há qualquer divisão entre os sonhos de fusão sexual, voluptuosidade matrona e o triunfo intelectual da mulher. Curiosamente, as mulheres (devido ao alto valor conferido pelo desejo masculino ao prazer sexual) parecem ser as principais promotoras desta divisão, fazendo pagar bem caro a posse da beleza (loira burra) e ameaçando com o ostracismo social toda a mulher, apostada em baixar o preço do relacionamento sexual, o que é antes demais, uma tremenda castração da mulher como sujeito do desejo, e isso é justamente o que o filme de Tino Brass põe em causa, ainda que a condição fisiológica da mulher, considerada em geral submissa (como anatomicamente penetrada) seja um problema difícil de ultrapassar e tenda  a inquinar uma parte do debate. Diria, com a coragem que me assiste, que os homessexuais têm uma palavra a desempenhar na história sexual da humanidade, expondo como o ser penetrado (uma razão de opróbrio para a cultura romana e latina) em nada devia beliscar a dignidade das pessoas.

Na verdade, basta ler os comentários sobre as mulheres participantes na Casa dos Segredos ou das mulheres envolvidas na indústria da pornografia para se ter uma ideia deste problema, como se vender o corpo diante de uma câmara fosse assim tão diferente de vender a inteligência ao comércio da literatura e da reputação artística, ou da santidade religiosa. Custa-me sobretudo que Jesus Cristo tenha visto claramente visto este problema («comem comigo pecadores e publicanos») mas as pessoas em geral insistam em não ver.

No fundo, o problema da raiva contra o entretenimento, é um sub-problema da nossa relação com o prazer físico, ou seja, da nossa relação com os limites do nosso corpo. Não quero ressuscitar o cadáver de Freud, mas o facto deste velho austríaco e devasso se ter enganado em muita coisa, não significa que não tenha olhado para o fundo do abismo. Aliás, foi por ter olhado, sem medo, para o fundo do abismo que falhou redondamente e motivou o ódio generalizado, foi por nos ter assustado que hoje tão facilmente cuspimos no seu maravilhoso delírio.

Quanto a mim, e considerando as coisas de um certo ponto de vista, digamos, rebarbado, a recriação, o lúdico, o entretenimento, são conceitos a que falta uma historiografia do uso mediático e literário. Posso jogar xadrez, é certo, e com isso estaria a usar o pensamento, mas também posso recriar-me observando a Casa dos Segredos, e aí posso usar o pensamento mas também outro tipo de complexos físico-neurológicos. Na verdade, este assunto continua a ser embrulhado em celofane e distribuído como brinde avulso em jeremiadas produzidas por uma grande parte das pessoas da Cultura, sempre muito amiguinhas dos desgraçados, e veja-se o mais recente filme São Jorge, mas também sempre prontas a considerarem o seu gosto como um modelo da excelência universal. Pergunto: qual a diferença substancial entre o pensamento utilizado para tocar uma Sonata de Mozart ou aturar a Teresa de Guilherme, respondendo a perguntas comportamentais, durante meia hora? Claro que o problema está sobretudo naquilo a que chamamos educação, hábito, mecanismos de reputação, e não tanto no grau ou na intensidade da inteligência ou do pensamento. Não negamos contudo os continentes de distância em termos de horas de treino e automatismo acumulado na infância (para os quais é imperioso guito e estatuto), para não falar do custo de um piano em casa, o que desde logo nos remete para uma economia das funções intelectuais, tema que não tem merecido o interesse dos vanguardistas dos nossos dias (talvez exceptuando o chatíssimo e péssimo escritor Bordieu) e sabemos bem porquê. #poesia

Voltemos portanto ao assunto que aqui nos trouxe, um livro escrito por uma mulher educadíssima e espectacularmente inteligente.

A própria disposição textual do romance engendra um sistema respiratório do romance em que manchas textuais distintas correspondem a diferentes intensidades e sentidos. 

Isto poderia ser dito sobre o romance, o facebook, a lista telefónica, as legendas informativas do telejornal, os letreiros e montras de um Centro Comercial ou o teleponto da Cristina Ferreira. Peço ao estimado leitor para fixar esta curiosa semelhança entre o romance considerado vanguardista e o tipo de comunicação comercial do mundo contemporâneo, que parece contaminar toda a literatura dita de ruptura. Na verdade, a suposta ruptura, imposta pelo «fluxo de consciência» não é mais do que a consagração dos meios de comunicação de massas (jornais, rádio, televisão e agora facebook e twitter) em termos literários, de forma mais ou menos irónica, e basta, como exemplo, invocar a enorme preponderância da estrutura das notícias impressas em folha de jornal no Ulisses de James Joyce.

Com efeito, confesso estar perdido acerca do que pretende o crítico assinalar neste novo e desorientado livro de Mafalda Ivo Cruz. Mas temo ser aqui forçado a informar o referido crítico e a romancista, acerca de uma velha e recorrente problemática da arte narrativa: dizer qualquer coisa de relevante e original, com estilo, elegância e profundidade, é muito difícil, é quase um acidente estatístico, e depende de muitas coisas para além da vontade do autor. Ou seja, é preciso muito mais do que um ambiente propício e interesse literário. É necessário termos sido agraciados com uma espanholada das deusas, ou um minete dos deuses (para não sermos acusados de descriminação) mas aviso desde já como as deusas e os deuses são muito selectivos naqueles a quem conferem espanholadas e minetes. Ou seja, aos promotores da ideia da necessidade de excelência quanto aos leitores e à palavra como instrumento de pensamento, esquece tantas vezes que, pelos mesmos padrões de exigência, 99% dos escritores considerados como dotados de qualidade literária, não passam de pedantes desajeitados, com amizades seguras em pontos estratégicos da nossa cidade. Exemplo:

Nesse aspecto, importa que Schönberg compareça em Pequena Europa na sua dupla condição de compositor e pintor. Não só porque essa condição dual o torna menos linear e, portanto, mais frutífero para este romance de formação elíptica, espiralar, à maneira de Sebald, mas também porque a arte, no geral, desempenha um papel fulcral em Pequena Europa.

Em crítica admite-se tudo, menos o facto dos críticos não terem lido os livros. Ver neste livro Pequena Europa qualquer semelhança com Sebald é digno de uma arbitragem de José Pratas. Sebald tem um domínio narrativo, sequencial, e convencionalmente respeitador da paciência dos leitores, que em nada se pode comparar com o livro em apreço. A comparação com Sebald, portanto, só pode ser apontada por quem nada compreendeu dos textos de Sebald, onde a sensação de vertigem é dada pela deambulação interior da personagem, e não pela deambulação da linguagem do narrador, e é nesta tensão que está o génio de Sebald, o que vem na melhor tradição germânica. Como mostrar o absurdo e a loucura do mundo, virando o convencionalismo, a disciplina e a ordem (fontes de autoridade artificial) contra si mesmas, sempre respeitando a mais burocrática das subserviências perante a gramática e até um certo conservadorismo formal da linguagem. Isto, naturalmente, provoca tonturas. No fundo, se há coisa segura, sistematicamente cadenciada, quase proporcionalmente maquinal, de tão constante, na sua frieza recolectora, é a linha narrativa de Sebald. Nem sequer o parágrafo longo pode ser confundido com qualquer tipo de confusão permanente. Uma elipse não é uma espiral. Tal como a revienga de Zidane não é a revienga de Bruno Caires (e por isso, não há vídeos). O desajustamento entre as ideias da personagem, um homem perdido e deslocado do mundo, e o registo rigoroso, ordenado, até meticuloso da narrativa, é precisamente o grande feito daquele autor alemão. Por alguma coisa, Sebald eliminou as notas de rodapé dos seus livros, e como grande artista, percebeu rapidamente o estrondoso ruído provocado por qualquer acumulação pedante e deslocada de notas de rodapé, e tratou de conferir ao todo o livro a simetria e proporção. Exactamente ao contrário deste A Pequena Europa, onde a autora julga até pertinente informar-nos sobre os excertos onde a tradução é da sua autoria.


Sim, devemos todos perguntar: não começarão as tiranias pela publicação de romances estandardizados? Não começarão as tiranias pela leitura da revista Maria? Por certo, o gelado Calippo tem o seu papel na instauração dos regimes totalitários. Mas o que é um romance standardizado, professora doutora Mafalda Ivo Cruz? É um romance rapidamente publicitado e aclamado nas páginas de um dos jornais outrora mais vendidos em Portugal, sem isso corresponder a qualquer interesse público?

Da mesma forma, pergunto: o que é uma arquitectura previsível? Quando Julieta está prestes a ingerir o veneno, numa standardizada sequência, ou seja, numa sequência muito bem contada, sabe a professora doutora se a belíssima Julieta irá ter sucesso no seu encontro com o bem amado Romeu? E quando Julieta, diante da ilusão do seu amado morto, por uma falha de sequência no plano idealizado, decide interromper a vida, o que nos diz o percurso do veneno no seu corpo acerca da linearidade do tempo narrativo?

Com efeito, tenho uma outra explicação para esta tão popular recusa da linearidade: é mais difícil esconder o facto de não termos nada para dizer quando nos dispomos a falar claramente. Será um crime não ter nada para dizer? Não. Mas isso, de uma forma ou de outra, acaba sempre por notar-se, e de que maneira.

A narração revisita acções e atitudes, movimentações e características, como se estas fossem fantasmas que perseguissem a própria possibilidade de narrar, questionando, obsessivamente, “Como é ainda possível ficcionar, como contar?” (num paralelo irresistível com os loucos ou alegados loucos que povoam o romance) Porque Pequena Europa é muito mais um romance que pergunta do que afirma. Duvida mais do que acredita. Descrê da capacidade afirmativa e, sobretudo, lúdica do literário.

Se há coisa que me interessa na sociologia da literatura contemporânea, é esta embirração com a possibilidade do ficcionar e do contar e o lúdico no literário. Mas desde quando foi fácil contar? Só o olímpico desconhecimento da história da literatura considera ter existido um tempo onde era fácil contar. Que tenham existido pessoas com facilidade em contar ou escritores com uma prodigiosa capacidade de narrar, não significa que a sua eficácia lhes tenha sido oferecida de mão beijada. Quantas horas de conversa, quantos manuscritos lançados ao lixo. Mas não vieram para os jornais lamentar as suas limitações, pois a dificuldade do narrar é, no fundo, a dificuldade em legitimar o projecto literário, ou seja, é o centro explosivo do que faz de uma pessoa alguém consagrado pelo tempo e a comunidade como um escritor. Pois é, caríssimos leitores, menos choradeira e mais paciência. a fama perene, como bem sabiam os antigos, implica o risco da própria vida.

Muitos anos depois do pobre Walter Benjamim ter escrito, numa introdução a Leskov, umas páginas confusas (mas apesar de tudo pertinentes), acerca do declínio do narrador no mundo industrial, este autor que vos fala quer dizer como tantas vezes ouviu velhas analfabetas manejar com invejável arte todos os segredos da narrativa. A complexidade do enredo, a densidade das personagens, as suspensões e acelerações, as divagações sobre o saber técnico (e lembro as páginas admiráveis de Italo Calvino sobre a técnica de marinhagem nas fábulas populares italianas) as famigeradas quebras de linearidade, a diversidade dos pontos de vista, e até a torrente e o fluxo da consciência, tudo isso é familiar a muita gente absolutamente desconhecida, anónima, analfabeta, entretanto morta e enterrada e perdida para sempre. Creio que três elementos alimentavam essa magistral arte de contar, em risco de perder-se diante do pedantismo da literatura impressa: a alegria e o prazer da voz entoada, aquilo a que Ariosto chamava o «canto»; o amor pela fragilidade humana e a consciência das limitações da razão e do discurso, que tantas vezes vi, em criança, de olhos esbugalhados diante dessas velhas sábias, magoadas e dotadas de uma coragem física e moral intransponível; e por último, e apesar de tudo, o profundo amor pela vida e o sentido de utilidade da comunicação humana e do contar aos outros, mesmo diante de todo o mal, mesmo diante de todos os perigos e desastres, ou se quiserem, sobretudo, perante todos os perigos e os desastres, a começar pela dificuldade em ganhar o pão de cada dia.

quinta-feira, 9 de março de 2017

Um dos mais impressionantes inícios da literatura do século XX recusado por todas as editoras

I am made out of water. You wouldn't know it, because I have it bound in. My friends are made out of water, too. All of them. The problem for us is that not only do we have to walk around without being absorbed by the ground but we also have to earn our livings.

Actually there's even a greater problem. We don't feel at home anywhere we go. Why is that?

The answer is World War Two.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Convosco, Dorsa Derakhshani, uma personagem imortal, criada por Roberto Bolaño








sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Kumbaya, my lord, Kumbaya

Vamos hoje abordar um problema, digamos, delicado. Esta recente e muito interessante entrevista serve de mote à consideração, pela enésima vez, de um tremendo e muito generalizado equívoco, a saber, as famigeradas ambições de um criticismo legítimo, aprendido na Academia, por oposição ao criticismo do mercado, ou seja, falamos da injusta, sumária e superficial condenação (enquanto sedes de juízo estético) da gaja boa ou do troglodita que por acidente, e porque lhes apetece, decidem comprar um livro para passar o tempo, sobretudo, quando são muitos (gajas boas e trogloditas) a comprar livros, não nos esqueçamos das nossas raízes democráticas, amen. Não quero com isto dizer que a invisibilidade da mão, manipulada por muita mamalhuda e por muito avantajado, represente, por si só, uma consagração automática do valor literário. Longe de mim defender, com uma venda nos olhos, essas robinsonadas dos economistas austríacos. Mas quero com isto dizer, se me é permitido, que não devia fazer-nos comichão o facto de existir uma, e passo a citar, literatura de mercado, ou seja, literatura light (sem as típicas gorduras dos aparelhos ideológicos de Estado, o que me parece uma elogiosa definição) ou nesse caso, teríamos de sentir a mesma coceira pelo facto de alguém vender a aprendizagem, a oficina, o treino, o segredo, a janela de oportunidade, aos pobres esperançosos apostados em fugir da tenaz do lucro e em não cair (ó clemência, ó piedade) no caldeirão infernal da famigerada literatura de mercado, benza-os deus.


Não teria resumido melhor o equívoco. Ou seja, o diabo veio de tenaz em punho e acabou com o tempo onde reinava uma tranquila tradição especificamente literária, que aliás, em Portugal, produziu toneladas de génios literários, é consultar a nossa glorioso história. Tirando Camilo e Eça (produzidos em grande medida pelo mercado) e excepção feita a Fernando Pessoa (que limpou o rabinho com a tradição especificamente literária) qual o escritor digno de registo produzido pela tradição especificamente literária? Herberto Trau Hélder? Quem? O gajo que não aparecia para melhor valorizar o produto? Almeida o Professor Faria? O José Estúdios Cor Saramago foi produzido fora do mercado? Lobo Antunes (com os seus 750 livros e as suas 3500 crónicas) não será uma espectacular produção do mercado especificamente literário? O Luiz arranja aí vinte paus Pacheco? Pensem nisto durante o Braga-Benfica.


Portanto, que seja o público, juntamente com esse grande escultor e adepto das touradas, o tempo, a seleccionar o valor literário entre o descomunal número de livros, é o grande pecado da literatura de mercado. É portanto preferível que seja o amigo, de um amigo, de um primo, de um amigo, a fazer a selecção, ainda em estado de manuscrito, e por critérios especificamente literários, e com o risco dos custos de impressão assegurados pelo Orçamento de Estado (ou por um primo na administração Gulbenkian) escolhendo quem são os legítimos operários (plástica e inventivamente) da língua portuguesa, paga aí a minha tosta mista. Claro que só podia ser um nicho, um nichozinho, um pequerrucho nichozinho, de mãos dadas com os leitores (sem contaminações comerciais) num Kumbaya autêntico, familiar, um verdadeiro policiamento de proximidade ao escritor. Portanto, não lembra às pessoas espectaculares da tradição especificamente literária que esta tradição especificamente literária, tão próxima, tão familiar e tão autêntica, devido, precisamente, à limitação da sua proximidade e âmbito familiar, seja o mais directo caminho para um provincianismo estético e literário, sacrificando (se não existisse literatura de mercado) centenas e centenas de autores com potencial.

Além disso, pergunto: quem é o escritor que se preze, interessado em conhecer os seus leitores? Para isso, não publicava livros, nem imprimia esse meio de comunicação à distância, o livro. Candidatava-se a uma vida pastoral no Seminário (por sinal, uma palavra nascida nas entranhas da Universidade, está tudo bem).

Neste modelo familiar, autêntico, próximo, terão de ser poucos a aceder a tão secretos e misteriosos critérios estéticos (até porque neste modelo de literatura, as cunhas financeiras não chegam para todos, claro está). Por certo, nos dirão que estes poucos são poucos também por selecção natural de robustez - ah, a tradição especificamente literária - ou por grandeza da massa cinzenta, ou por abnegação filosófica e altruísmo moral, terão de ser poucos esses que, não vivendo da literatura (o dinheiro ganho com os livros tem peçonha) ganham a vida com outras actividades, nomeadamente, ensinado as especificidades da literatura, para, com efeito, poderem dedicar-se a torcer plástica e inventivamente a língua portuguesa. Kumbaya, my Lord,Kumbaya.

Acontece que, e em verdade vos digo, se a língua é considerada portuguesa, é porque, com efeito, uma comunidade chamada Portugal, cuja complexidade histórica vai da centralização manuelina (trau) passando pela degeneração católico-monárquica (oleada por um latinismo fedorento e tardio) até ao falhanço republicano em generalizar a leitura e os livros (que deu origem a essa miséria moral, política e pirotécnica, chamada Estado Novo) se foi construindo segundo critérios que não são meus, nem são teus, mas nossos. É com a língua portuguesa que todos havemos de lamber o cu do destino, mas daí a definir previamente quais a lambidelas mais inventivamente plásticas (que nem sempre são as mais capazes de suscitar prazer ou introspecção) vai uma distância do tamanho das pernas de D. Afonso Henriques.

Ora, a consciência das merdas em geral, devia tornar deveras complicado definir, excluídos os aparelhos ideológicos do ensino da literatura portuguesa, o que é ou deixa de ser uma invenção plástica da língua, quanto muito, podemos definir um projecto pessoal de invenção estética de uma dada língua (que a literatura de mercado, se deus quiser, irá submeter dinamicamente ao juízo da mamalhuda e do avantajado, pois que, no mercado, há lugar para todos), isto se o escritor tiver engenho para tanto, pois para mim, a inventividade plástica pode estar mais em reproduzir a técnica de Ovídeo, ou em glosar o calão de Margarida Rebelo Pinto, do que na mundividência estético-mental da procissão de gurus, adestrados na tradição especificamente literária, que fazem parte, nomeadamente, da instituição, legitimamente promovida, na referida entrevista. E não é certo que a mamalhuda, bendito seja o deus da criação, não prefira Ovídeo ou Shakespeare, ou se quisermos, Sebald - para dizer um nome contemporâneo - à tradição especificamente literária da inventividade plástica da língua portuguesa. E quanto ganhou Shakespeare, submetendo ao mercado a tradição especificamente literária, utilizando para tal a tenaz do lucro? As pessoas precisam de suar um bocadinho mais, se pretendem construir um sistema de legitimação da supremacia da tradição especificamente literária sobre a literatura de mercado. Não basta cantar o Kumbaya.

Em todo o caso, quero deixar bem claro: não condeno, nunca condenei, nunca condenarei, quem pretenda ganhar a vida ensinando a tradição especificamente literária, mas é de mau tom lançar do alto anátemas contra a tenaz do lucro, só porque, aparentemente, algumas pessoas não preenchem os critérios estéticos preconfigurados numa alegada tradição especificamente literária. Aliás, é curioso como a legitimidade estética negada à literatura de mercado, se revela adequada ao ensino da escrita criativa, através de um disparatado e pseudo-científico discurso em torno do conceito de optimização (aplausos) e de técnica de expressão (risos). Permitam-nos uma citação longa, mas o interlocutor, justiça lhe seja feita, é estimulante.



Portanto, se andássemos todos aqui a dormir, não notaríamos que ensinar a moldar uma plasticina requer um conjunto de critérios para diferenciar (esteticamente) os diferentes actos de moldagem dessa plasticina, caso contrário, uma criança de três anos também poderia ministrar o curso. Mas esses critérios não são revelados, a não ser por cada um dos formadores, e após pagamento da inscrição (aplausos), e segundo a subjectividade da experiência dos formadores, o que pouco aproveitará ao aprendiz (digo eu), e desde logo, reproduz a supremacia do mestre sobre o aluno, ou seja, a Universidade é um vírus muito eficaz a parasitar a actividade criativa, aparecendo agora sob novas, mais obscuras e mais decadentes roupagens. Claro que nenhum dos escritores formadores expõe publicamente esses critérios, não só por razões comerciais (prefere vender os segredos de oficina à porta fechada e em fascículos), mas também porque não faz a mais pequena ideia do que seja um critério universal em literatura, e teria de confessar a figura triste que anda a fazer, tão pobre de razões metafísicas (e tão eficazmente pragmático) é hoje o travejamento estético de um escritor.

Não lamentamos, contudo, nada nesta situação. Tudo isto é mercado, tudo isto é legítimo, tudo isto é impulse, mas por isso, recomendamos menos moralização da literatura ligth. Por outro lado, optimizar ferramentas de expressão implica uma economia estética e uma escala de desperdício, o que implica uma retórica universal das ferramentas literárias, o que só pode provocar o riso.  A optimização da ferramenta narrativa utilizada por Marcel Proust (salvo seja) é um desperdício em Italo Calvino e o processamento da expressão em Faulkner é uma cacofonia aberrante, à luz dos processos em Marguerite Yorcenar. Entretanto, paga aí a tosta mista. O que é legítimo, desde que não impliquem com a minha vontade de comer morcela ou hambúrgueres americanos a transbordar de gorduras saturadas.


segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

A azia da influência: António Lobo Antunes e a dolorosa consciência da sua própria irrelevância

«Até Tolstoi é uma sombra insignificante, se for passear com Anna Karénnina».
Elena Ferrante, Escombros


Concordo em geral com o comentário aqui deixado, pelo nosso estimado leitor, Gerónimo Cão, à mais recente polémica literária, embora, no meu caso, dispensasse também as entrevistas dos últimos vinte anos, juntamente com os últimos vinte livros de António Lobo Antunes (daqui em diante, e até que a morte nos separe ALA). Arrisco dizer, a partir de Fado Alexandrino, entramos numa dolorosa e dorida repetição. Na verdade, estamos diante de um caso típico. Um escritor talentoso, abençoado pelo nascimento, a educação, e as condições materiais, um moiro de trabalho e um gigante na determinação, acaba por revelar-se incapaz de produzir uma obra à medida das suas ambições. Se quisermos resumir tudo numa frase jornalística, estamos perante um caso clássico de azia da influência.

Não queremos com isto colar à obra de ALA o rótulo de falta de interesse, o problema é a medida dos espaços intergalácticos sonhados pelo escritor, e o resultado do confronto entre esse sonho de infância e a qualidade/alcance da obra publicada. Por muito que se repitam os insultos a vultos das letras portuguesas (vultos esses que devem aparecer no silêncio da noite a ALA tanto maiores quanto mais a sua própria figura literária se vê reduzida com o passar dos anos) e por muito que se proclame o «consenso dos Steiners e dos Blooms» (no fundo, e para todos os efeitos de imortalidade, apenas dois velhinhos com livros tendencialmente irrelevantes) ALA entrou há muito num processo de sportinguização (peço desculpa a toda a gente) perante a realidade.

Comparações com Céline? Como responsabilidade política, é um disparate. ALA pode insultar todos os dias Camões e mijar para cima do busto de Almeida Garrett, nada disso se assemelha ao colaboracionismo nazi. Como medida do talento literário, um disparate ainda maior, pois ALA não chegou nunca a arranhar nem a originalidade temática e estilística, nem a dimensão artística do referido escritor francês. O crítico Alberto Velho Nogueira interroga-se sobre que tipo de culpa justificará esta raiva perante José Saramago. Tenho uma hipótese: ALA, como autor inteligente e muito culto do ponto de vista literário, terá uma vaga consciência do seu falhanço e de como a sua obra, sendo interessante, não é a magia que Cesarynamente procurava.

Proponho um teste simples: digam-me uma, digam-me só uma, uma personagem memorável criada por ALA. Podemos trabalhar a linguagem no torno, podemos torcer o frasear, fazer do hiperbato e da hiperbole os bombardeiros das nossas intenções narrativas, podemos desmontar peça a peça toda a gramática, triturar a acção, cortar em pedacinhos o narrador, isso de modo algum colide com o derradeiro teste de toda a potência literária: a criação de uma realidade, claramente definida num destino narrativo, mais intensa e duradoura que o próprio autor. Não existe, aliás, numa obra conseguida, qualquer contradição entre inovação (e até provocação) estilística e a energia revelada pelos personagens, antes pelo contrário.

Se tomarmos o caso de Ulisses (exemplo clássico de constante terrorismo perante as convenções narrativas) temos, nada mais, nada menos do que três personagens memoráveis: Leopold Bloom, Stephen Dedalus e Molly Bloom, a quem o primeiro terá beijado, legitimamente, as nádegas. Ora, no caso de ALA não sobra nada a não ser uma indefinida cacofonia emocional multiplicada infinitamente pelas infinitas hipóteses de infelicidade do destino humano, personagens a que não chegamos sequer a fixar os nomes, de tal forma são meras convenções, escravizadas pelos ais e uis do tom narrativo, que a certa altura, nos começa a parecer sempre a mesma pessoa, ou seja, um escritor de livros sem outro interesse a não ser a sua própria glória literária (isto topa-se ao longe). Todavia, o projecto até seria razoavelmente interessante, se não tivesse sido feito centenas de vezes. ALA tentou uma mistura entre o anonimato Tchékoviano (com a sua galáxia de impressivas e breves tragédias quotidianas) e a interioridade de Joyce (com a sua torrencial transferência do sofrimento interior submergindo o eixo da narrativa) mas não produziu nada de verdadeiramente novo, a não ser um fluxo de interminável comentário a outros escritores maiores. ALA é um caso de evidente derrota às mãos de gigantes passados.

Há sempre grande escândalo quando se procura enquadrar, com alguma severidade, autores tão amplamente consagrados como ALA. Neste aspecto, o próprio ALA oferece um glorioso paradoxo, qualificando a obra de Saramago como «uma merda». No fundo, está a chamar (mesmo que involuntariamente) a atenção para o carácter precário e subjectivo de toda a obra literária. Faz bem, só é pena não lhe conhecermos o raciocínio crítico, e nisto reside a sua maior fragilidade e a clara denúncia do carácter angustiado da sua imitativa obra. Quanto a prémios e traduções, apenas um exemplo: sabiam que Luís Sttau Monteiro, durante os anos sessenta, era traduzido no impenetrável mercado dos EUA, e com muito favorável crítica no New York Times? Moral da história: calma, muita calma.

Com efeito, James Joyce tem sido uma espécie de Segurança Social para uma infinidade de escritores com razoável talento mas sem a força criativa (muito rara, diga-se) suficiente para virar o curso da historiografia literária do Ocidente. De Virginia Woolf a William Faulkner, passando por Beckett, ALA é só mais uma triste derivação na atormentada história das desesperadas tentativas para superar as muitas linhas de raciocínio literário abertas pelo mais famoso zarolho irlandês. ALA tem a seu favor, e devia recordar-se disso (o que certamente aliviaria o fardo) o facto de ser extremamente difícil produzir qualquer coisa de novo e duradouro em termos literários, ao contrário do que parece proclamado todas as semanas nos comunicados oficiais dos prémios. O que não significa qualquer elitismo da nossa parte, antes pelo contrário. Como tenho insistido aqui, a luta continua, e a primeira e mais duradoura regra da evolução literária, pode ser resumida no famoso aforismo evangélico: muitos são os chamados mas poucos os escolhidos.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Gentil Senhora Ferrante, estarei apaixonado por si?

Nem sempre é fácil resumir cabalmente o papel desempenhado por este blog. A crítica raramente pode ser excessiva ou injusta, pois quanto aos escritores de escasso talento, consagrados pelo afecto pessoal, a Academia e o mandarinato, sempre insidiosos e manipuladores, a enviar likes e beijinhos a figuras destacadas do meio literário (e falo de casos reais), será sempre difícil neutralizar a sua estratégia medonha em tempo útil, e muito menos nos anima qualquer espírito inquisidor. Tenham muitas felicidades, convençam os júris formados por cinco velhinhos/as e um galã literário, e alcancem todos os prémios possíveis, mas não nos peçam para apoiar (e silenciar) a venda a céu aberto de gatinho rafeiro estufado, nas vezes da lebre de coentrada.

Quanto aos escritores, aqueles a quem justamente podemos qualificar como tal, esses terão sempre a última palavra, sem precisarem de mais do que a página do livro, e triunfarão sobre a inveja, a maldade, a sobranceria ou a severidade das apreciações. Por isso, nem um ano passado sobre um azedo tratamento do seu anonimato, sou forçado a partilhar o momento em que a gentil senhora Elena Ferrante (Escombros, p. 40) me agarrou pelos testículos e me obrigou a ajoelhar, para grande prazer da minha inteligência, aliás, sempre pronta a declarar-se derrotada, se para tal existem razões e méritos literários.

«A pergunta é a seguinte: porque é que, apesar de ter lido o meu livro há um ano, apesar de o ter apreciado como diz, concretizou a ideia de entrar em contacto comigo só agora, depois de ter sabido que vai ser feito um filme baseado em Um Estranho Amor?
Se tivéssemos, não digo de fazer uma entrevista, mas de ter uma conversa amigável, eu discutiria consigo sobretudo as razões para ter levado tanto tempo, partindo por exemplo de uma observação sua. Escreve você, mas menos brutalmente do que eu resumo: o seu livro diz-me alguma coisa mas o seu nome não me diz nada. Pergunta: se o meu livro não lhe tivesse dito nada e o meu nome lhe tivesse dito alguma coisa, teria levado menos tempo a pedir-me uma entrevista?»

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Shakira e Literatura: alguns aspectos


António pessoa ungida pela sagacidade Guerreiro in Público

As mães do Pedro Nunes nunca terão lido Breton e Robbe-Grillet (dois gajos que não chegaram a ver a França campeã do mundo) mas daí até as mães do Pedro Nunes (como entidade institucional) desconhecerem as contradições implícitas no admirável e litúrgico mundo do pinanço em espetacularidade, vai uma distância do tamanho que for mais adequado à satisfação de cada um. Ou seja, o senhor general e almirante António Guerreiro, no seu confuso texto, comete um erro típico, várias vezes aqui aludido (e também por nós praticado, pois gostamos de meter a mão no prato com pecadores e publicanos) isto é, toma a realidade pelas coisas lidas nos livros, uma cena que já alegadamente motivou a má fama do Quixote.

Isto não significa privilegiar a experiência em relação à teoria (deixámo-nos disso desde que o António Veloso falhou um penalti em Estugarda) mas apenas reconhecer o gigantismo da nossa ignorância sobre a realidade, dada a amplitude da sua complexidade e a sua natureza amplamente precária, para não falar da problemática relação entre a realidade e os ponteiros do relógio. Esta ignorância não exclui um razoável domínio daquilo a que as pessoas em geral (e cremos que o Jorge Gabriel também) chamam a Literatura. Antes pelo contrário, a Literatura (bem como a fixação escrita de todas as linguagens) é precisamente uma forma de esconder a ignorância sobre as coisas em geral, e a arte de bem cavalgar toda a ignorância através da linguagem, implica conhecimentos técnico-táticos em múltiplos domínios, mas não nos detenhamos por agora em assuntos demasiado perigosos. Quero com isto dizer que não desdenharia visitar a vida sexual das mães do Pedro Nunes.

Com efeito, o António Guerreiro (com uma reacção à perda fortíssima e por isso mesmo, exagerando, no referido texto, as consequências extraídas do sucesso sociológico da angeologia no meio literário português) devia contudo saber que, precisamente, e em geral, o tipo de «alma» criada na Travessa da Lapa e na censura da porcalhice é também muito fértil em potência criativa ao nível da mesma e referida porcalhice, tal como já todos devíamos saber por intermédio desse vulto da pornografia doméstica, o arquitecto Tomás Taveira. António Guerreiro talvez pretenda, contudo, sublinhar isso mesmo. As mães do Pedro Nunes são umas porcalhonas mas não querem os filhos a serem iniciados na porcalhice. Uma posição aliás legítima. Se bem entendo, o caso é simultâneamente mais clássico e mais infelizmente esquerdalho, ao nível dos preconceitos culturais: António Guerreiro mostra-se tentado a afirmar que as burras das mães do Pedro Nunes são precisamente parte do grupo responsável pelo sucesso do Valter, mas somente enquanto o retrato público do Valter foi o da superficialidade mediática do curador de almas, transmitida pelo jornalismo, uma vez que só o António Guerreiro lê livros. Mas quando o referido Valter resolve mostrar o seu lado caxineiro, as mães do Pedro Nunes, segundo António Guerreiro, entraram em histeria existencial. O mundo é mais complicado, e estaremos todos de acordo, não se aprende sobre as relações entre erotismo e pornografia na Travessa da Lapa, mas muito menos se aprendem essas relações em Breton ou Robbe-Grillet, e com isto, já não estaremos todos de acordo. Talvez as mães do Pedro Nunes não pretendam que seja o Valter a explicar o mundo aos seus filhos, ainda que por aí tenham aparecido teorias sobre a importância da leitura, como se recomendar Valter Hugo Mãe a adolescentes, não fosse precisamente o mais directo caminho para erradicar da juventude todo o prazer da leitura. Nisto, estou com as mães do Pedro Nunes, com todo as minhas forças morais, talvez não pelas mesmas razões das mães do Pedro Nunes, que aliás desconheço, mas não desdenharia conhecer.

Não sei até quando será necessário repetir: a literatura não pode representar utilidade universal na vivência do mundo, como já acima se referiu quanto à supracitada tragédia do mais famosos leitor de romances. Por outro lado, e alegadamente, até o Diabo teve um passado ligado à Travessa da Lapa e à angeologia. Quanto a eventuais problemas de adequação literária às estratégias pedagógicas, confesso o meu desinteresse conjuntural no tema. No fundo, a Shakira também é mãe e deve estar para inscrever os filhos numa Travessa da Lapa qualquer, e não estou a vê-la a apreciar a literatura do valter hugo mãe, mas isto é por certo um preconceito da minha visão estética do mundo.

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Lamentavelmente, somos forçados a regressar a um assunto encerrado. Valério Romão voltou à carga num artigo publicado no famoso e aclamado periódico, Hoje Macau. Afinal, as ideias expostas no excerto criticado não são dele mas de uma personagem que expõe «atabalhoadamente a sua visão redutora das relações». O ponto, contudo, não é esse, nem podia ser, pois nesse caso, Valério Romão devia estar orgulhoso por ter conseguido enganar os leitores, é o sonho de qualquer autor. Mas como bem sabe o professor doutor Valério Romão, está em causa, precisamente, a falta de talento para ser atabalhoado e fingir uma visão redutora das relações que não seja diretamente contaminada pelas ideias do escritor. Está em causa, sobretudo, e se me é permitido ter opinião (muito obrigado), o direito constitucional de considerarmos os seus textos e temas terrivelmente desinteressantes, pois são, precisamente, os temas da moda. Pior do que isso, a literatura de Valério Romão é em geral uma revisitação de António Lobo Antunes (e isto é um elogio), mas com maior ruído e desacerto metafórico, muita cornucópia dispensável, muita irónica referência a marquises e ao tupperware. Mais concretamente, reservamos o direito de considerar o elemento bizarro no referido excerto, pois (parece-nos) uma personagem atabalhoada, a primeira coisa em que pensa, é em relacionar, de forma redutora, a câmara de Fellini com as relações amorosas, envolvendo nisto a pila de alguém. Tenhamos paciência.

Quando à ideia da intermediação da personagem, então, mais uma vez, o doutor Valério escorrega na sua própria casca de banana, pois nesse caso, não será o rapaz da internet, também ele (eu) quem? apenas e tão somente uma pirandelliana desdobragem ficcional neste grande teatro do mundo? Para quê considerar como sujeito real uma persona qualquer a escrever sobre literatura? No fundo, talvez seja uma personagem atabalhoada a descrever redutoramente as suas opiniões sobre o grande escritor Valério Romão? Para quê tomar pelo valor facial um texto assinado por um extraterrestre num blogue obscuro?

Na verdade, tanto o senhor doutor Valério como o excelentíssimo senhor Valter esforçam-se por representar o papel de mártires da liberdade expressão, perseguidos pela fúria indignatória desses dois pólos da perversidade universal, as redes sociais e as mães do Pedro Nunes. O caso é tanto mais ridículo se pensarmos que as alusões ao texto de Valério Romão, foram lançadas em campo estético e as críticas apenas dirigidas ao autor, e nem poderia ser de outro modo, pois não temos o prazer de conhecer a pessoa. Ou muito me engano, e eu engano-me muitas vezes, o senhor professor doutor Valério Romão insiste em fazer aos outros o que considera inapropriado quanto à sua pessoa (e peço-lhe para voltar a considerar o que escreve quase mensalmente sobre escritores menores como Chagas Freitas ou líderes espirituais como Gustavo Santos). Na verdade, talvez se aprenda alguma coisa com Gustavo Santos, quanto mais não seja, a não ter medo de lavar as próprias cuecas. Reciprocidade: ora aí está uma coisa que se aprende consumindo boa pornografia, um campo socio-cultural onde uma boa cena implica a experiência mutuamente recíproca de cada centímetro corporal lambido. Somos pois chegados a um universo paralelo, onde um escritor acusado de ser mediano e literáriamente conservador (replicando temas e estratégias estafadas e exauridas na obra de Lobo Antunes) responde acusando os seus críticos de censura, e invocado o direito a utilizar palavrões. A vitimização, sobretudo em figuras privilegiadas pelos órgãos mediáticos e pelos centros de difusão nacional da cultura, é dos espectáculos mais lamentáveis a que temos assistido.

Bem sabemos como o mártir da liberdade de expressão é uma tipologia weberiana que está para a carreira literária como o pau de Cabinda para as mães do Pedro Nunes, basta pensar naquele autor perseguido e que semanalmente é forçado pela opressão de um valor monetário a escrever copiosas crónicas no Expresso. Na verdade, colar a este blog o epíteto censório (e para utilizar um famoso delírio da percepção) é o mesmo que confundir a experiência de amar uma mulher fumadora com uma lambidela a um cinzeiro. Meus amigos, é preciso mais concentração, pois, como já por diversas vezes referi, não andamos todos aqui a dormir.

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quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Equívocos da vida moderna

Em busca de uma urgentemente necessária e muito prometedora biografia de Celine, o autor de Viagem ao Fim da Noite, eis que o motor de busca capricha no rigor da devolução e me apresenta este esfíngico volume.

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Esclarecimento - da autoria de um rapaz da internet

«há uns tempos um rapaz da internet fez uma crítica a uma passagem do autismo que um amigo meu partilhou no facebook, e en passant, ao autismo, a mim enquanto escritor e, passo duplamente maior que a perna, a mim enquanto pessoa.» 

Valério Romão, in Facebook (uma cena da internet, a todos os títulos, espectacular)

Nunca saberemos se este rapaz da internet é o autor que vos fala (aqui, na internet) pois o estimado escritor Valério Romão não teve a gentileza de nos fornecer essa informação, mas sabemos contudo que (vírgula) nunca procuramos criticar as: pessoas, com P grande, a não ser enquanto Pessoas sistematicamente cheias de ambição literária injustificada, pois sabemos ser esse o propósito da crítica (praticamente inexistente em Portugal, como bem sabemos). Todavia, ao contrário do senhor doutor Valério Romão, fazemos ao menos a justiça de identificar os nossos alvos, e sobretudo, tentamos não ser sistematicamente insultuosos em relação a pessoas como as alegadamente pessoas Gustavo Santos ou Pedro Chagas Freitas, no fundo, gostamos de nos meter com alguém do nosso tamanho, e como tal, o senhor doutor Valério Romão podia ter encarado a crítica como um elogio que, por arrasto deste vosso autor (eu) talvez o salve do esquecimento daqui a duzentos anos (pedimos desculpa a toda gente, pois muito ínvios são os caminhos do senhor). 

Quanto a passos maior que a perna, são os únicos passíveis de assistir a nossa mentalidade ganhadora, Domingo a Domingo, e não estamos sequer preocupados com o índice lesional das boas maneiras, partiremos o pescoço ou não partiremos, o que importa é a literatura, partam-se por isso as nossas pernas, o que importa é a literatura, estatelemos o focinho no chão, mas sejamos capazes de salvar os argumentos (e a literatura), argumentos esses a que, muito estrategicamente, o senhor doutor Valério não responde, e por isso, somos obrigados a - infelizmente - ficar por aqui nesta, por certo, enriquecedora troca de frases maiores que o nosso conhecimento da gramática.  Na verdade, temos pela natureza humana em geral - e sobretudo pelos frequentadores das redes sociais, os rapazes e raparigas da internet - o mesmo respeito civil e jurisdicional que nutrimos por escritores consagrados pelo sistema editorial das pessoas espectaculares, pelos doutores de leis, pelos presidentes da república ou cantores nascidos na Pampilhosa da Serra. Com isto, encerramos o assunto, desejando, novamente, as maiores felicidades ao excelentíssimo Valério Romão, pedindo desculpa por qualquer incómodo causado à sua sensibilidade enquanto escritor, autor e pessoa.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Ando com uma vontade de arrebentar com isto tudo

Instruções

1. carregar no play do video
2. reclinar-se na cadeira e apreciar



PS: o devido mérito e vénia ao Insónias em Carvão por ter apanhado este momento de nosso senhor salvador JJ.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

A fenomenologia da cartolina: autorreferencialidade e confusão em Maria Gabriela Llansol e Bruno de Carvalho


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quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Senhoras e Senhores, convosco, o Pai Natal

Proclamação: «Mesmo os livros de Llansol, na sua atemporalidade, e ainda que remetam para a história humana, não deixam de tocar a história portuguesa.»

Comentário: Os livros da Maria Gabriela Lençol parecem saídos da imaginação torturada de uma adolescente problemática com dislexia (peço desculpa a toda a gente) sendo que, remetendo para a humanidade da história humana, e apesar de uma primeira abordagem da história dos pinguins, Maria Gabriela Lençol limitou-se a deixar paletes de folhas manuscritas lá no sótão da casa em Fontanelas, ou na Praia das Maçãs ou em Colares, agora não tenho presente, terão de consultar a obra crítica do Pai Natal.


Proclamação: «O mesmo aconteceu com a poesia em grupos como o do Cartucho (Joaquim Manuel Magalhães, João Miguel Fernandes Jorge, Helder Moura Pereira,António Franco Alexandre) que obrigaram a poesia a um regresso ao real. Mas um real que espelhava o novo Portugal, urbano, fortemente desencantado,profundamente melancólico, mesmo se irónico. É aqui que encontramos também poetas como Vasco Graça Moura, Fernando Pinto do Amaral, Luís Miguel Nava, Al Berto…»

Comentário: A poesia - contrariada - lá se dispôs a regressar ao real.


Proclamação: «A importância das escritoras para a renovação da literatura portuguesa é algo que já vem dos anos 60 mas que se vai solidificar nos anos 80e 90. Quer no romance, com Agustina, Lídia Jorge, Maria Velho da Costa,Teolinda Gersão, quer no conto com Maria Judite Carvalho, Teresa Veiga, Luísa Costa Gomes, quer em obra sem género definido como são os livros de Llansol ou Hélia Correia, foram as mulheres que mais arrojaram em termos temáticos, estilísticos. Elas introduzem uma desordem, com a polifonia, a meta-narrativa, a intertextualidade, uma nova ordem do simbólico que se manifesta na forma como usam os tempos, a auto referencialidade, a subjetividade. Nas escritoras a busca de uma voz é a busca de um sentido e, nesse caminho, elas fizeram uma rebeliãocontra o discurso masculino que dominava a ficção portuguesa.»

Comentário: Aprende, aprende humildemente, o velho é que a leva direita. Gostava entretanto - se me é permitido - de dizer (com todo o respeito) duas ou três palavras: Carlos de Oliveira. Tem pilinha, mas alegadamente, de um ponto de vista da «desordem, polifonia, meta-narrativa, intertextualidade, uma nova ordem do simbólico que se manifesta na forma como se usa o tempo, a autoreferencialidade e a subjetividade» parece-me indiscutivelmente que. Quanto ao referido grupo, tenho dificuldade em, digamos, expressar o meu sentido crítico por motivos, digamos, autoreferenciais, mas note-se: a Hélia Correia não gosta de sol e tem como principal atributo o coleccionismo de memorabilia em torno de uma ou duas notas de rodapé da história da literatura decadentista. Alegadamente, também leu os clássicos, mas lamentavelmente, nunca a vi no estádio da Luz, pelo que, não pode ser. A Teolinda Gersão também sabe alemão, de resto, é uma pessoa espetacular que tenho o prazer em desconhecer absolutamente. A Lídia Jorge diz que a literatura é o prolongamento da infância, uma coisa a todos os títulos de uma originalidade infinita. A Maria Judite de Carvalho não sei quem é. A Teresa Veiga confundo com uma pessoa que vive na Madeira, mas se calhar é a mesma. A Luísa Costa Gomes, calma camaradas. A Agustina é chato, é rural, é exótico, é psicótico, é Camilo com peso a mais.


Proclamação: «A literatura e a poesia são sobretudo um trabalho deestruturação de um olhar sobre o mundo e depois a colocação desse olhar sob aforma de linguagem. Uma linguagem que não se limite a contar factos (isso, láestá, é o que fazem os media) mas que dê a ver o invisível através do visível.»

Comentário: Ôéó-ó! Ôéó-ó, Ôéó-ó-ó-ó-ó, Ôéó-ó-ó-ó-ó!


Proclamação: «A imposição do romance quase como sinónimo de literatura apagando a poesia e o conto, o realismo de cariz conservador e banal, a pobreza da linguagem, são sintomas de um mundo sem memória, onde a cultura, a arte e aliteratura se regem por paradigmas economicistas. O único lugar onde ainda existem valores é na Bolsa. A vida das pessoas gira em torno do consumo e das vivências do corpo mas apenas na sua perspetiva hedonista. Logo, o simbólico, aletra, a palavra saem a perder. A tecnologia apaga a palavra. A literatura foi totalmente contaminada pela acumulação de a tualidade, de informação, abdicandodo espaço da História, da memória. Obriga-nos a um eterno presente onde imperam as imagens.»

Comentário: A confusão é de tal ordem que temos dificuldade em desatar este novelo de disparatada oração ao Santíssimo Sacramento da Literatura. Se o romance é uma forma comercial e metiaticamente apetecível (tal como o era o teatro grego na antiguidade ou o drama isabelino no final do século XVI ou o folhetim, depois romance em fascículos no século XIX) que tem isso a ver com a qualidade (risos) e a originalidade do conteúdo (olé) veiculados por essa forma? E se a mesma é apreciada por um público disposto a pagar a liberdade do artista, onde está a relação linear entre as preferências do público e a suposta falta de qualidade do produto consumido para fins de edificação mental? Paradigma economicista? Mas agora somos forçados ao paradigma economicista das Universidades centralizadamente financiadas com impostos onde todo o respeitável e reputado escritor deve inexoravelmente ir ajoelhar? O simbólico clube de Portugal está em crise? Mas não estão os estádios cheios? Mas estaremos aqui a ignorar a revitalização do salto-agulha? Professor, doutor, camarada, Barrento, o excelentíssimo professor possui apenas 76 anos, não os transforme, com todo o respeito, em 1776 anos.

Vejamos a seguinte ilustração simbólica do paradigma economicista-consumista numa dimensão, digamos, hedonista de satisfação do corpo enquanto vivência ou quisermos, enquanto delinquência moral, embora, como diria Anselmo Ralph, nem lhes tocamos, apesar de serem duas, a dançar ao som de um torturado e bem-aventurado mancebo, prestes a ser introduzido no maravilhoso mundo da tragédia masculina. Em que gaveta do seu esclerosado instrumentário de apreciação do mundo coloca o senhor professor doutor este conjunto poético-comercial de estímulos mentalmente simbólicos no que à produção da linguagem diz respeito?

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Proclamação: «Há agora também a moda da violência espetacular de um autor de quem já gostei mas que hoje não acho nada interessante que é o Paulo José Miranda. Na mesma linha li um livro do Valério Romão e achei que apesar de tudo ele tem mais recursos. De entre estes novos e mediáticos escritores o único cuja obra eu considero original é o Gonçalo M. Tavares. É um escritor douto,capaz de abarcar um largo espectro de temas, de formas de linguagem, é imensamente culto e consegue trazer essa cultura para dentro dos seus livros.»

Comentário: Calma, não se zanguem. Está tudo bem.


Proclamação: «Penso que, recentemente, há a redescoberta de uma certa fé na poesia aliada a um olhar crítico e irreverente que muito me agrada e que está a acontecer com os poetas muito novos, na casa dos 20/30 anos. Entre eles destaco dois grupos: os criaturistas, Diogo Vaz Pinto, David Teles Pereira e Golgona Anghel ligados à revista Criatura que depois se transformou na editoraLíngua Morta. E os Apócrifos, um conjunto de poetas muito jovens ligados àrevista Apócrifa, cuja primeira antologia vai sair em breve com prefácio meu.Também prefaciei, a pedido da editora [Maripoza Azul], o livro Groto Sato de Raquel Nobre Guerra. Era um bom livro. Infelizmente este novo dela, Senhor Roubado, já achei fraco. Mas o que importa é fazer.»

Comentário:
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segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Não sei se já referi isto neste espaço de cultura, mas a Inês Fonseca Santos desorganiza todos os nossos esforços de construção de uma personalidade, digamos, reponsável

Parafraseando Herberto Helder, «o extremo poder dos símbolos reside em que eles, além de concentrarem maior energia que o espectáculo difuso do acontecimento real, possuem a força expansiva suficiente para captar tão vasto espaço da realidade que a significação a extrair deles ganha a riqueza múltipla e multiplicadora da ambiguidade», ou se quisermos recorrer a um tema popularizado por Marco Paulo, «quando você vem com essa cara de menina levada para a brincadeira, dá-me um arrepio na pele (...)». Não era esta a teoria de Kafka sobre a leitura dos livros fundamentais?

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Para quem se pergunta o que é a crise dos media convencionais, aqui vai um exemplo

Através do blog Ouriquense tivemos conhecimento, arriscamos dizer, do mais consistente projecto crítico em literatura portuguesa, neste momento disponível aos leitores. O autor da referida obra crítica é o escritor Alberto Velho Nogueira, cuja existência desconhecíamos em absoluto (é inútil congeminar teorias) tal como não conhecemos pessoalmente o excelente autor do Ouriquense, responsável por fornecer de forma gratuita ao público, um índice de parte da referida obra crítica de Alberto Velho Nogueira,  remetendo ordeira e organizadamente os leitores, segundo títulos de livros e escritores, para a estimulante prosa crítica.

Um exemplo comprovativo, sobre o aclamado livro de Gonçalo M. Tavares, Uma Viagem à Índia:



Agora, pergunta este cansado autor que vos fala, o que andam a fazer os nossos jornalistas literários, com acesso a jornais e canais de televisão de médio e largo alcance, para só agora termos conhecimento deste blog e através do tenebroso mundo das redes sociais?

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Aquilo a que se chama a filosofia epistemológica

Kate Winslet:

Sai uma sandes de presunto e uma caneca de vinho verde (tinto) para este rapaz que se tem alimentado mal



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segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Televisão em movimento


Para lidar apropriadamente com a quantidade de ideias confusas lançadas nesta prosa poética, seria preciso uma verdadeira legião de autores com o dobro do meu gabarito intelectual e o triplo da minha energia literária, mas como bem sabe o público deste blog, nunca nos negamos ao confronto.

Subscrevemos a primeira afirmação, ou seja: a Cristina Ferreira não só é uma apresentadora de programas populistas da televisão portuguesa, como é também uma apresentadora de programas populistas da televisão portuguesa, sendo que a professora doutora camarada Paula Cosme Pinto, autora do artigo acima supracitado, considera que, em verdade vos digo, a Cristina que muito prezamos Ferreira é também (e passamos a citar, portanto, abrir - perdão - aspas): «uma grande estratega e empresária» e um símbolo vivo da «meritocracia». Recomendamos, neste momento, muita calma. Não vamos referir o investimento em horas de televisão por metro quadrado de área de construção em Malveira da Serra, mas queremos, contudo, dizer algumas palavras sobre gostar ou não gostar do tipo de programa que a Cristina Empresária Estratega Ferreira faz no pequeno ecrã: a relação entre o gosto, o valor comercial de uma marca e a capacidade de gerar audiências é um problema com capacidade para fritar os neurónios à doutora Paula Cosme Pinto, o que, bem tememos, talvez tenha acontecido. O programa é direccionado às massas, massas essas que, em verdade vos digo, concorrem para o sucesso da referida apresentadora, segundo o critério de aferição do que pode considerar-se, a preços de 2016, uma apresentadora de sucesso, ou seja, uma cavalona, digamos, de qualidade estratégica. Mas quantos anos de exposição mediática de homens com bigodinho pagos por uma televisão pública com monopólio da emissão seriam necessários para gerar o referido valor da muito justamente valorizada Cristina Ferreira? Seria justo começar por aqui.

Será que isto belisca a nossa consideração pela condição, digamos, feminina? En-ten-da-mo-nos, se queremos citar o camarada Francisco Louçã, pois o público bem sabe estar, no caso da minha pessoa, na presença de um autor que, inclusivamente, frequentou o mês de Maria, rezou o terço, ajoelhou muitas vezes diante da graciosa e imortal criatura, a estrela da manhã, o berço de virtudes, a cheia de graça, farol do desejo, graciosa mãe natureza, vulgo, a mulher.

Deixando de lado a melindrosa questão acerca do reverencial respeito com que eventualmente se possa misturar chavascal e consideração, perguntamos à doutora professora engenheira Paula Cosme Pinto, de que modo se consegue a atenção de milhões de pessoas sem o recurso a um canal de televisão e à companhia de um desde já por si, apresentador com a atenção de milhões de pessoas, vulgo, Manuel Luís com todo o respeito Goucha? De modo algum queremos aqui beliscar a honorabilidade da referida Cristina Tranca Ferreira, e tudo temos feito neste blogue para a salvaguardar dos vampiros da crítica literária, mas não levemos longe de mais o esforço de justiça, transformando esta questão num problema de índole, digamos, filosófica.

Pergunta, pois, e de lágrimas nos olhos, este famigerado autor que vos fala: quantos anónimos extenuados de trabalho, empenho, profissionalismo, tenacidade, capacidade de criar uma marca em torno de si próprios, continuam a limpar casas de banho ou a levantar graciosamente tabuleiros no centro comercial - com um máximo de televisiva simpatia, eloquência, competência, apetência, suavidade - sem que isso se traduza, digamos, num centésimo do valor conferido pelo sistema de preços, vulgo, carrocel circense em que vivemos? E isto apesar do valor estratégico com que levam o detergente às imundas casas de banho, ou da cabal responsabilidade com que encaminham os hóspedes à porta de um hotel.

No fundo, o Portugal dos pequeninos é o Portugal onde os pequeninos nunca podem, contudo, exteriorizar o seu ódio em paz, ou seja, apenas podem, no fundo, utilizar os recursos democraticamente postos à disposição pelo capitalismo libertário, para fundamentar os pilares da criação de riqueza, oleados pelo ódio (e o desejo) dos referidos pequeninos (quando não incomodam ninguém), e isto num continuado ciclo sofredor que faz as delícias dos doutorados em Economia austríaca com sotaque portuense. Na minha humilde opinião, este estado de coisas tem beneficiado muito pouco o público, no sentido em que as ineficiências de mercado (geradas por tiques de autoritarismo pedante) continuam a representar uma rigidez essencialmente frígida no que ao sistema de preços diz respeito. E isto significa que a valorização dos produtos - se continuamente condicionada por organizações centralizadas, como as televisões - continua a ser cavalgada por uma hierárquica, soviética, católica, apostólica, vitoriana, concepção do público enquanto conjunto de solteironas e solteirões (somos sensíveis às questões de género) muito pouco dados a, digamos, sair das suas, digamos, posições conservadoras, ou se quisermos, dos seus sofás. Vejamos, a título de medição do empenho, um excerto diarístico, da referida Cristina vulgo Ferreira:


Isto não justifica qualquer tipo de insulto, embora revele níveis de empenho e trabalho muito reduzidos, e por isso, convidamos os leitores a pensarem esta relação entre o sucesso da «estratega e empresária» Cristina vulgo Ferreira, e os «valores do trabalho, do empenho, do profissionalismo, da tenacidade, da capacidade de criar uma marca em torno de si própria, partindo do zero».

Na verdade, caríssima psicóloga engenheira doutora juíza Paula Cosme Pinto: não serão as razões do sucesso de Cristina Ferreira bem mais prosaicas (nomeadamente, sorte e tempo de antena) apesar de inteiramente legítimas? Que os projectos comerciais promovam o ódio é justamente compreensível, sobretudo quando milhares de pessoas com o triplo da inteligência e da capacidade de trabalho da Cristina Ferreira não beneficiam das suas condições, nomeadamente, a oportunidade como apresentadora da televisão, um trabalho que consideramos um justo castigo para todas as pessoas ambiciosas. Em suma, a consideração do intervalo entre as capacidades de Cristina Ferreira e a sua remuneração (directa e indirecta) justifica moralmente a difamação? Talvez não, mas seria mais fértil avançar para um enquadramento da referida difamação que não passasse pela consideração topológica e geométrica das pessoas. Entretanto, uma vez que a referida Cristina Ferreira está longe de ser caso único, recomendo ao público calma e paciência.

Por outro lado, e em verdade vos digo, toleramos todo o género de badalhoquice ao nível das cabeças de topo nos sistemas centralizados, mas quanto à liberdade de expressão no espaço público, alto lá, insultos é que não. Entretanto, está tudo bem, a Cristina Ferreira continuará a prosperar, sem revelar especial incómodo pelo ódio da turba de inquisidores, por estar plenamente consciente - e disto estamos também nós plenamente conscientes - da importância da turba na criação do valor de que a própria Cristina vulgo Ferreira se alimenta. Pode dizer-se que a bela e simpática Cristina Ferreira será nisto de um alcance mental a que justamente podemos colocar o epíteto de estratégico. Estou certo de que a mesma compreende cabalmente os insultos que, certamente, em dado momento da sua vida, também lhe terão passado pela cabeça, ou se não passaram, isso certamente se deveu a um particular benefício dos deuses da televisão. Temos pena que neste particular não seja acompanhada por mais pessoas. Por outro lado, o ódio do público nutre-se de uma justificada consciência da exploração das fragilidades civilizacionais, o que de modo algum deve ser negligenciado pelo público, sendo que, digamos, está tudo bem. Que os medíocres colunistas do Expresso ou do Diário de Notícias julguem importante insultar o público dado a insultos, é apenas um sinal de que, digamos, também está tudo bem.

© Revista Cristina